O Primeiro de Muitos Amores

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Quando eu era criança e adolescente, a minha vida era marcada pelas fases que eu estava afim de alguém. Da segunda à quarta-série, foram os anos do Milton. Todas as meninas tinham crush no Milton. A quarta e quinta série, foram do Jose Ricardo. Da sexta à oitava, do Mario Sergio. Eram crushes platônicos, e eu nunca me declarava.

 No ano de 2001, no entanto, no auge dos meus 15 anos, eu senti a minha primeira paixão de verdade. Eu fui tomada por um sentimento que transbordava e ocupava a minha mente o tempo inteiro. Eu me apaixonei por uma pessoa que passei a conhecer pela internet.
 A internet estava bombando naquela época, e eu adorava quando chegava a minha hora de me conectar no ICQ (se você não sabe o que foi o ICQ, somos de outra geração. Mas te afirmo que foi algo muito revolucionário na época para troca de mensagens).

 O nome dele era Sergio, e eu o conheci brevemente quando fui para Santa Catarina anos antes, e acabamos trocando ICQ. Anos depois, nos pegamos conversando todos os dias, por horas. Ele era mais velho que eu e tinha o problema da distância, pois ele morava no interior do Rio Grande do Sul.

 A distância não diminuiu o meu gostar que só aumentava. O ICQ não bastava: passamos a nos falar por telefone madrugadas a dentro, quando era mais barato fazer ligações interurbanas. Eu vivia nos Corrêios, mandando cartas, presentes, carinhos. Goo Goo Dolls era a nossa banda, que tocava a nossa música. Eu estava totalmente apaixonada.

 Eu precisava ver aquele cara, precisava saber se ele era mesmo o amor da minha vida. Quando olho pra trás, eu vejo que eu sempre tive isso dentro de mim: essa ânsia em resolver, em realizar. Eu tenho muita coragem de tentar as coisas, mesmo sabendo que pode não dar certo. Até hoje sou assim.

 Com nossos contatos diários e intensos (e em ver o quão louca de paixão a filha adolescente dele estava), meu pai tentou convencer a familia do Sergio em deixá-lo vir para São Paulo, pra gente finalmente se conhecer de verdade. Não deu certo. Então o que a Heloisa fez? Me determinei a ir para Santa Maria. Se ele não ia vir até aqui, eu ia até lá.

 Eu não comia e eu emagreci muito naquela época. Eu dizia que me alimentava de amor (oi?! Haha). Eu estava consumida de uma paixão adolescente e intensa. A minha mãe, desesperada em ver o quanto eu estava definhando nessa intensidade, e depois de muitas brigas na família, me disse: “Filha, essa será a primeira de muitas paixões que você vai viver na sua vida. Ele não é o homem da sua vida. Eu sei que pode parecer no momento, mas eu prometo que ele não é. Se você precisa ir até lá pra acreditar, então vamos”. E no feriado de Corpus Christi de 2002, eu e a minha mãe fomos pro Sul.

 Quando eu fui, a minha relação com o Sergio já estava estremecida. Estava fria pela distância, e por todas as impossibilidades. Mas eu tinha na minha cabeça que eu não queria estar com 60 anos e pensar que eu nunca o conheci. E se ele fosse, mesmo, o amor da minha vida?

 A viagem me presenteou com tudo que eu precisava para conseguir virar a página nessa história. Eu sofri demais com o fim das nossas conversas, com o fim de sentir que eu era especial para alguém. Mas hoje, mais que tudo, eu sei que eu sofri mais com a morte da fantasia toda. Foi um luto.

 Com 34 anos e muitas experiências na bagagem, eu olho para essa história com compaixão. Compaixão pela Heloisa tão determinada, que ainda habita em mim. Compaixão pela inocência, pela intensidade. No entanto, o amor que te faz passar mal - não é amor. Essa crença que eu tinha de que só ele poderia me fazer feliz, não é verdade. Ninguém tem esse poder. Pensa comigo: quem é o único denominador comum em todas as relações que você viveu? Você.

 Nossa capacidade de amar é grande e larga. Quando não dá certo com uma pessoa, a gente segue, pois o amor é nosso, não do outro. Não precisamos do outro para validar que somos especiais ou amáveis. É gostoso quando o outro aperta o botão do amor e de que somos especiais? Claro. Mas esse botão é nosso. Quem cultiva o amor somos nós.

 Minha mãe estava certa, óbvio: ele foi a primeira de algumas outras paixões que eu tive. No entanto, essa me marcou muito por ter sido a primeira que partiu meu coração ingênuo. Mas também foi a primeira vez que eu aprendi que eu conseguia remendá-lo de volta.


Notícias aleatórias

  • Normal People: A série do Hulu, baseada no livro de Sally Rooney de mesmo nome, conta a história de Marianne e Connell, dois adolescentes que se apaixonam. Parece clichê, mas a série me fisgou: o amor deles é muito genuíno e me espanto como o personagem Connell, em sua masculinidade, consegue elaborar seus sentimentos. Ele erra, mas aprecio ver um homem elaborando, dentro de suas limitações, as suas emoções. Os diálogos dos dois são bonitos, simples porém complexos. As cenas de sexo são lindas e conseguem transmitir para o espectador a intimidade que existe entre eles.

  • Água com gás com sabor: em Nova York, teve uma época que eu consumia elas demais. Até que dei uma pausa e agora aqui no Brasil, a Bonafont lançou umas águas com gás com sabor que me fez revisitar essa delícia. Tem sabor de tangerina, abacaxi com hortelã e limão. If this is your jam, se joga.

  • JuCurti Saboaria: mês passado, eu dei a missão para a dona dessa saboaria artesanal fazer sabonetes que transmitissem amor, para que as presenteadas se sentissem banhadas em amor. Foi lindo. Além da sabonetes, a Ju Curti Saboaria faz velas e outras delícias de se ter.

    Com afeto, sempre.
    He=)

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