Como o Abuso Me Virou de Ponta-Cabeça
Eu tinha um post prontinho para falar sobre a indústria do Yoga Fitness, mas a pauta do abuso tem reverberado e escolhi seguir com o que estou sentindo.
Nessa semana, eu escrevi nesse post aqui sobre ter vivido num casamento abusivo. Eu não costumo falar muito disso em mídia social por medo de represária do meu ex-parceiro, mas como esse post é em Portugues e ele não entende (e tem preguiça de traduzir no Google rs), me sinto mais à vontade. Olha eu aqui, 6 anos depois de ter me separado, ainda carregando cicatrizes do abuso. Alguma parte de mim ainda sente medo de ser abusada verbalmente, de novo.
Hoje eu não venho aqui para contar detalhes dessa relação, mas em como o yoga participou dela. Como falei algumas vezes, teve épocas, especialmente em 2012, que eu praticamente vivia no estúdio de yoga. Eu praticava no YogaWorks Union Square (que a Deusa o tenha), e não importava o professor ou o tipo de prática: eu estava lá, às vezes fazendo 3 aulas por dia. Tudo isso porque eu não queria ir pra casa. Aquele estúdio foi o meu refúgio, segurou muitas lágrimas, me apresentou à minha professora, e me ofereceu segurança.
Passando pra frente na história, em 2015 quando me separei e estava no processo judicial de estabelecer a guarda da minha filha e pensão, eu tinha que tirar dias de folga do trabalho para comparecer às audiências com o juiz. Era um momento de muita ansiedade: em ter que estar perto do meu ex, em ter medo que o juiz pudesse dizer que eu era uma louca (porque era tudo que o meu ex marido falava de mim), ou que eu não ia ter a guarda minha filha. Até que um dia, enquanto aguardava ser chamada pelo juiz, eu comecei a me sentir muito inquieta e uma voz na minha mente dizia: “vai pro banheiro, vai pro banheiro, Heloisa”, e então eu fui. Chegando no banheiro, a voz falou de novo comigo e disse: “fica de ponta cabeça”.
Agora pausa: nessa época, eu não tinha uma prática estabelecida em invertidas. Eu as fazia casualmente nas aulas de Iyengar, mas não era algo muito presente na minha prática até então.
Voltando para a cena do banheiro, eu senti que o meu corpo queria de qualquer maneira ficar de ponta-cabeça, acompanhando o pedido da voz da minha mente. Então, eu entrei na cabine, forrei o chão com papel e inverti em sirsasana (headstand). Eu não entendia porque essa vontade tão forte em inverter, mas eu o fiz. Segui o instinto.
Voltei para o banco que estava sentada, tivemos a audiência e fui embora. Resolvi então aproveitar que estava de folga do trabalho e a Amelie na escolinha, e fui pra aula do meio-dia da minha professora.
Depois que a aula dela acabou, eu pedi pra conversar com ela e contei o que tinha acontecido naquela manhã.
- Chrissy, você conhece a minha prática. Você sabe que eu não sou praticante de invertidas, mas tudo que o meu corpo queria era inverter naquele banheiro público. Eu não sei o que aconteceu comigo.
Ela então pausou, e respondeu:
- Querida aluna, parece que a sua vida está de ponta-cabeça, e no momento da audiência, quando você estava sendo tomada por ansiedade, seu corpo pediu para você colocar a mente no chão. Aterrar seus pensamentos. Não ficar com a cabeça nas nuvens, mas sentir firmamento na mente. Então a mente e o corpo te guiaram a inverter e aterrar. Faz todo sentindo, my darling.
Eu fiquei em choque. Fazia total sentido.
O corpo é sábio, e se temos um pouco de sensibilidade que seja para escutar a nossa intuição e os pedidos sensíveis da mente, nós podemos acessar um lugar de refugio dentro do nosso próprio corpo.
Eu nunca vou esquecer esse dia: o dia que o Yoga me guiou para um banheiro público para que eu estivesse em mais comunhão comigo mesma, num dia tão difícil. Desde então, estabeleci minha prática de invertidas.
Caso voce esteja numa relação abusiva ou conhece alguém que precisa de ajuda, ligue 180.
Não espere que o vizinho ligue. Ligue você.
Muitas vezes, eu mesma torcia para que alguém ligasse para alguém vir me ajudar. Seja essa pessoa. <3
Com afeto, sempre.
He =)