Nossa Identidade Tendenciosa

Durante meus anos na escola, eu sempre gostei de história.
Era a única matéria que eu garantia aquele dez com louvor.

 A vida, então, se encarregou de me levar a estudar História da Arte.
Eu tive o privilégio de passar quatro anos estudando história. História que se manifestava dentro da arte!
A arte que conta história.
 Em um dos semestres, eu me matriculei em “O Renascimento do Norte Europeu”, e foi nessa matéria que eu fui apresentada a uma das pinturas mais excepcionais que já vi.
Olha só:

Eyck, Jan van. The Arnolfini Portrait. (1434)

The Arnolfini Portrait do Jan van Eyck é linda e impactante na riqueza de detalhes e todos os simbolismos contidos nela.
 Eu poderia falar horas sobre Jan Van Eyck, a quem é atribuída a invenção da tinta óleo.
Poderia falar da história que esse retrato conta.
Mas hoje eu quero falar sobre uma das coisas mais importantes dessa pintura: a questão da identidade na autoria do que colocamos no mundo.
Foi a primeira vez que um pintor assinou um trabalho no século XV.
Van Eyck não assinou com o típico nome no canto da pintura, pois isso não era o costume.

Ele foi auspicioso e inseriu, em latim, acima do espelho da pintura:
 “Jan van Eyck esteve aqui”
É mais que uma assinatura: é um atestado de ter testemunhado aquela cena.
Ele deixa bem claro que o que você vê está sendo representado perante o olhar dele, pois ele estava lá.

Os artistas até então, não assinavam os seus trabalhos pois era se tido que quem comissionou a arte é quem merece o reconhecimento.  Para você ter noção, os artistas começaram a assinar suas obras (como sendo a norma) somente no século XIX.
  Somente há dois séculos o artista começou a assumir pro mundo que: “O que voce vê, vem do meu olhar.”.


Ensinar yoga (ou qualquer coisa), não é diferente.
 Tudo que produzimos, escrevemos, criamos, ensinamos, é inevitavelmente biased, ou seja, tendencioso.
Ao ler o livro “The Courage to Teach”, que foi incluído no meu curso de 300h YTT, Palmer escreve:

“Ensinar, como qualquer atividade humana, emerge da própria interioridade, para o bem ou para o mal. Ao ensinar, projeto a condição do meu dever nos meus alunos, na minha matéria e na nossa forma de estarmos juntos. Os emaranhados que experimento na sala de aula muitas vezes não são mais nem menos do que as circunvoluções da minha vida interior”

Achei isso muito bonito e honesto.
O jeito que eu ensino, vem com a lente pela qual eu experiencio o mundo.
A cada aula que eu dou, eu assino o meu nome embaixo. É autoral.
Quando dou aula, eu inevitavelmente projeto o jeito que eu percebo o mundo e o meu entendimento dos Sutras, por exemplo.

A definição de Yoga vem de união.
Não há separação do que eu vejo e de quem eu sou.
Nós podemos tentar neutralizar nossas impressões, mas não tem jeito:
se veio de você, tem você.
Se olharmos uma cena juntes, cada um vai ter uma interpretação, uma narrativa, algo que prestou mais atenção.
Nosso olhar e trabalho emergem da nossa interioridade.

 Dentro da História da Arte, assinar o próprio trabalho, comprovando que o que está sendo visto pelo expectador é fruto do olhar e das lentes do artista, é muito recente.
É recente também a consciência da nossa natureza tendenciosa, na compreensão da psicologia humana e de como as nossas lentes permeiam o resultado de tudo que fazemos.: uma pintura, uma aula, esse texto.

Sabendo disso, o que eu tenho feito é trabalhar cada vez mais para ter mais clareza de quem eu sou, limpando com frequência as lentes pelas quais eu vejo o mundo, para que eu ensine de um lugar sempre íntegro e coerente.
Sigo trabalhando para que o que permear os resultados do meu trabalho tenha a parte tendenciosa mais bondosa e amorosa que existe em mim.

 Seguimos <3

The Arnolfini Portrait está na National Gallery em Londres.


Notícias Aleatórias

  • Universo: como alguns de vocês sabem, eu estudei um semestre de Astronomia durante a minha graduação. Eu acho o universo fascinante e admiro muito a inteligência exata dos cientistas. Meu professor era o Michio Kako., que é uma figura e muito inteligente. Desde então eu adoro acompanhar semanalmente o que acontece na astronomia.
    Há duas semanas, eu li sobre esse planeta, WASP-121b, que está no finalzinho da Via Láctea, é gasoso, muito maior do que o nosso Júpiter, e aonde chove a versão líquida de pedras preciosas.
    Uia.

    Se depois de ler isso, você pegou o telefone pra ligar pro Elon Musk para agilizar um escambo, hold your horses!
    Lá é quente pra porra, pois o planeta orbita bem pertinho da estrela dele.

WASP-121b : uma lindeza só!

  • Hippie no Carnaval:
    - Oi moça, meu ajuda? Eu faço um anel pra você. Você pode pagar com uma cerveja.
    - Claro! Bora.
    (compro a cerveja)
    - Pronto, rapaz, uma cervejinha 600ml geladinha!
    - Porrãn… não tinha Heineken?

    🤡

  • Stillwater: esse show de TV infantil é muito bonitinho.
    A Apple TV+ em parceria com profissionais de mindfulness, criaram esse programa que traz uma mensagem a cada episódio, transmitida através de historinhas que o Panda, Stillwater, conta para as crianças. Se você conhece uma criancinha - ou quer voltar a ser - recomende e assista.

    PS: a trilha sonora é assinada por Kishi Bashi, o mesmo das músicas místicas de Hilda. A gente ama por aqui - tanto o som quanto Hilda ☺️


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