Cadê A Minha Casa?
Assim que eu cheguei em Nova York, eu reconheci o cheiro. Cheiro dos táxis, o cheiro da calçada, o cheiro do metrô. Deixei as malas, e quando fui para o supermercado, eu sabia aonde encontrar tudo que eu precisava, sem pensar duas vezes: copos de frutas? Atrás dos cestos. Papel toalha? Opa, está ali no corredor 3.
Então abri o tapete de yoga, que eu peguei emprestado e foi a sensação mais entranha dos últimos tempos. E então me vi emocionada.
Eu comprei o meu tapete de yoga em 2015 e ele tem sido meu companheiro desde então. Ele é roxo e pesado e eu conheço cada cantinho dele como a palma da minha mão. Sei a textura, os furinhos de uso, o cheiro. Meu tapete de yoga é praticamente uma casinha móvel que carrego e me acolho e me traz aconchego em qualquer lugar. Porém, fui para outra cidade por uns dias e me percebi deslocada e sem o meu tapetinho, que sempre me traz uma sensação de casa e aterramento.
Nos Yoga Sūtras de Patañjali, ele escreve sobre os kleshas, que são os distúrbios da mente. Um dos kleshas, é algo chamado de asmitā. Asmitā pode ser traduzido como sendo o nosso ego, o que engloba o jeito e como você se identifica e se reconhece no mundo. Por exemplo: pode ser o seu cargo no trabalho, o seu cabelo castanho, os seus olhos azuis. Talvez você se identifica como sendo com um gênero, ou sendo uma pessoa alta, baixa, gorda, magra, com certo estilo, No entanto, Patañjali diz que é o nosso apego a essas coisas que nos causa sofrimento. O nosso apego ao que muda.
E não é que é verdade?
Quando nos apegamos às coisas mutáveis e nos deixamos definir por elas, o sofrimento é inevitável. Afinal, tudo muda: nosso cabelo muda de cor quando envelhecemos, nosso corpo muda, nossa casa muda, a cidade muda.
A prática é limpar os apegos de asmitā, e aí o que sobra somos nós mesmo. Com ou sem cabelo, com ou sem o tapete de yoga preferido. Quando você tem lucidez do que realmente te define e entende seus mecanismos e seu mundo interno com mais clareza, o sofrimento cessa, pois ele não está atrelado aos apegos do ego ou com o que ou como você se identifica no mundo. Quando a prática para cessar esse klesha é bem sucedida, nós passamos a nos identificar em qualquer lugar, pois o nosso ser mais puro não é alterado. Ele segue. A gente segue, independentemente da cidade, do país, do cargo no trabalho ou do tapete de yoga.
Meu desejo pra nós é de que a gente consiga se conectar com o nosso compasso interno. Sem importar a direção do vento, ou aonde é a nossa casa. Que a gente consiga encontrar o nosso norte com carinho e compaixão, nessa prática de yoga fora do tapete, identificando nossa casinha imutável dentro de nós.
Seguimos, praticando.
Notícias aleatórias
Mare of Easttown: Vou ser direta - pára tudo que voce esta fazendo e assiste essa série. Se você me conhece, sabe que eu sou super medrosa pra series de suspense e coisas de terror eu nem assisto porque eu amo meu coração e é isso aí. Porém, essa série é tão bem feita em tantos aspectos: primeiro que nao te dá susto pois é um suspense refinado. Segundo, os personagens foram muito bem escritos e terceiro a atuação da Kate Winslet está merecedora de um Emmy. A personagem Mare, interpretada por Kate, é tão comum no seu jeito de se vestir, a maquiagem, o cabelo, as falas. Enfim, assista. Disponívem na HBO ou aonde você faz o escambo pra assistir rs.
Papelaria Cícero: eu descobri essa loja online e eu me apaixonei. Tem cada coisa linda! Tantos cadernos que te inspiram e despertam o desejo em escrever. Eu amo!
Light on the Yoga Sūtras of Patañjali de B.K.S. Iyengar: falando em Patañjali, se você acha densa a leitura dos Sutras, eu comprei um livro que foi recomendado pela minha professora e eu estou apaixonada pelas interpretações e pelo jeito simples, porém poético, que esse livro traz. Super recomendo!
PS: eu acredito que existam traduções em português.
Com afeto, sempre.
He =)